
Teste de estresse criou ansiedade desnecessária no mercado
Por Luciana Xavier
Não está claro que os testes de estresse representam algum ganho para se resolver a crise bancária nos Estados Unidos. A opinião é de Bert Ely, consultor independente da indústria bancária, que frequentemente é chamado para dar depoimento no Senado ou Câmara dos EUA. Seu último depoimento foi dado a um subcomitê da Câmara, em março, no qual fez sua avaliação sobre o Programa de Alívio de Ativos Problemáticos (TARP, na sigla em inglês), criado ainda no governo de George W.Bush.
"Nem precisávamos ter passado por esse exercício. Acho que o testes criaram ansiedade desnecessária nos mercados financeiros e não estou certo de que acrescentam alguma coisa", afirmou ao AE Broadcast Ao Vivo, por telefone, de Alexandria, no estado norte-americano da Virgínia.
"Os mercados de ações já vinham nos dizendo sobre qual a força dessas instituições. Então, não está claro que haja realmente algum ganho com esses testes de estresse", acrescentou Ely.
Segundo ele, no entanto, não é possível avaliar se os testes não foram suficientemente "estressantes". "Não concordo com os mais pessimistas sobre os resultados dos testes de estresse. O maior problema é que o governo não deu muitos detalhes sobre como eles foram aplicados e é difícil julgar se não foram estressantes o suficientes ou muito estressantes", comentou.
Os resultados dos testes de estresse apontaram na semana passada que dez das 19 maiores instituições financeiras dos EUA precisarão levantar US$ 75 bilhões em capital para cobrir ao menos US$ 600 bilhões em perdas de crédito nos próximos dois anos.
Saída - Bert Ely disse que o programa do governo dos Estados Unidos para livrar os bancos dos ativos tóxicos pode não ser a melhor solução para a crise bancária atual. O Programa de investimento público-privado (PPIP, na sigla em inglês), mais chamado de Plano Geithner, em referência ao secretário do Tesouro, Timothy Geithner, foi anunciado em março deste ano.
"É altamente questionável se os bancos devem ser forçados a se livrar dos ativos tóxicos agora, pois isso significa que eles teriam que vender ativos, arcando em muitos casos com perdas substanciais. Para os bancos, pode ser melhor segurar esses ativos até que os preços se recuperem", afirmou Ely.
Para Ely, a chave para a indústria bancária no momento atual está em levantar capital adicional, como já está sendo feito por várias instituições nos EUA. "Vários bancos estão levantando capital para poder segurar seus ativos tóxicos e ainda serem capazes de emprestar. Aliás, devo acrescentar que, ao contrário das notícias que têm saído, os bancos estão sim emprestando, ainda que o PIB esteja declinando. Não é correto dizer que os bancos não estão emprestando, porque de fato eles estão", disse.
Ely afirmou que aqueles que dizem que os bancos não estão emprestando não estão olhando atentamente os dados que têm saído recentemente. Ele ressaltou que boa parte dos problemas de crédito nos Estados Unidos gira em torno do fato de que a indústria dos bancos sombras (shadow banks, em inglês), que faz securitização de ativos, congelou e não voltou a funcionar bem, apesar de iniciativas do governo.
As instituições sombra não estão sujeitas às mesmas regras dos bancos depositários. Exemplos de instituições que atuavam como bancos sombras são os bancos de investimentos Bear Stearns e Lehman Brothers. "Esta parte do sistema financeiro realmente não está funcionamento muito bem. Mas isso está fora da indústria bancária", disse.
Segundo ele, os empréstimos nos balanços dos bancos registraram apenas uma ligeira queda este ano, acompanhando o movimento de desaceleração da economia. "Os bons tomadores de empréstimos estão conseguindo crédito nos dias de hoje. A reclamação vem daqueles que querem empréstimo, mas estão em situação ruim e aí, francamente, eles não merecem crédito."
Bert Ely disse que ainda não é possível avaliar se o pior da crise bancária ficou para trás. "Tudo vai depender do que ocorrerá na economia como um todo. Não é possível dizer com exatidão em que ponto da crise estamos hoje. Estamos começando ver sinais positivos na economia, mas pesam alguns indicadores negativos. Creio que levará alguns meses para ficar mais claro se a economia chegou ao fundo".
Para o consultor, o ponto mais crítico a ser observado daqui para frente é a taxa de desemprego. "Alguns dizem que o desemprego irá começar a moderar e que chegou no seu pico. Trata-se de um fator determinante para o desempenho da economia e da indústria bancária", comentou.
Ely se disse menos preocupado com a situação dos empréstimos para automóveis e mais com os cartões de crédito. "Os cartões de crédito estão ligados à taxa de desemprego. Se há mais desemprego, as perdas em cartões de crédito irão aumentar", explicou.
Outro risco aos bancos, segundo ele, está nos empréstimos para imóveis comerciais. Ely disse que se as vendas no comércio vão mal e o desemprego aumenta, a tendência é de que os problemas nesse segmento também se acentuem.