
M.Stanley mantém projeção de queda de 4,5% do PIB em 2009
Por Luciana Xavier e Andréia Lago
Há quem acredite que a recuperação da economia brasileira possa começar ainda este ano e há quem diga que o País já está de novo na rota de crescimento, como o Ministro da Fazenda, Guido Mantega. Não é, definitivamente, o caso do Morgan Stanley. O banco norte-americano mantém sua projeção de queda vertiginosa do PIB de 4,5% em 2009, a previsão mais pessimista do mercado.
Parte desse resultado negativo este ano, segundo o economista-chefe do Morgan Stanley no Brasil, Marcelo Carvalho, se dará por causa do carregamento das quedas observadas no 4º trimestre de 2008 e 1º trimestre de 2009. Carvalho afirmou que, a julgar pelos dados de hoje da produção industrial, a queda do PIB do 1º trimestre deste ano deve ser da "ordem de 3% ou mais". "O 1º trimestre virá muito ruim", observou. A projeção anterior do banco estava em queda de 2%.
"Vamos ter o segundo trimestre consecutivo de queda do PIB, definindo uma recessão técnica para o Brasil. E a queda do PIB no 1º trimestre deve ter impacto importante no PIB deste ano. A maioria dos analistas ainda não percebeu quão fraca esteve a economia na virada do ano", explicou, durante entrevista ao AE Broadcast Ao Vivo.
O resultado do PIB do 1º trimestre sairá no dia 9 de junho, véspera da reunião do Copom e, segundo Carvalho, deverá pesar para uma redução da Selic de pelo menos 1 ponto porcentual, para 9,25% ao ano. Outro corte de 1pp viria em julho, segundo ele, colocando a taxa básica em 8,25% ao ano.
Carvalho acredita que o afrouxamento monetário ajudará na recuperação da economia, mas tem ressalvas. "Os canais de crédito estão parcialmente bloqueados. A expansão do crédito vem perdendo vigor e deve desacelerar nos próximos meses. Além disso, os spreads continuam elevados. Diria que talvez a política monetária hoje é menos eficiente do que foi no passado", comentou.
O economista disse que a retomada da economia brasileira dependerá da melhora da economia mundial e, nesse caso, Carvalho acredita que o cenário não aponta para recuperação este ano. "Há sinais de alívio nos indicadores recentes. Mas continuo com a opção mais cautelosa em relação à velocidade e intensidade de uma recuperação global. Há ainda vários fatores jogando contra uma recuperação sustentada", disse.
Entre esses fatores, ressaltou Carvalho, estão os problemas persistentes no sistema bancário norte-americano e a dificuldade de o governo do país de resolver a questão dos ativos tóxicos. Há também uma desalavancagem forte do consumo, segundo ele. "Há um quadro de aumento da poupança nos EUA e esse movimento deve durar muitos anos. A economia mundial não pode mais contar com a pujança do consumo americano", observou.
Marcelo Carvalho disse que o Morgan Stanley mantém também projeções de queda de 3% do PIB dos EUA este ano, queda de 3% do PIB na Zona do Euro e contração de 6% na economia japonesa. "A economia mundial este ano terá uma contração de 1% a 2% em 2009. Será um ano bastante difícil. Já é a pior recessão desde os anos 30 e a recuperação será gradual e tênue". Para ele, o mundo começa a se recuperar provavelmente em 2010, mas num processo muito gradual, que levará anos.
A exceção, informou Carvalho, é em relação à China. O Morgan Stanley recentemente revisou sua projeção de crescimento do PIB da China de 5,5% para 7% este ano, mas o economista disse que "ironicamente" o Brasil não deve se favorecer tanto desse cenário mais positivo para a economia chinesa.
Ele explicou que a variável-chave de maior relevância para o Brasil são as importações e exportações chinesas que, no entanto, foram revisadas para baixo. "No que faz mais diferença para gente, que é o comércio exterior chinês, o quadro não melhorou muito. Na verdade, piorou na margem".
Produção industrial - Os dados da produção industrial em março mostram alguma recuperação, mas não são suficientes para se esperar uma retomada consistente da economia brasileira, conforme deixou claro Marcelo Carvalho. Segundo ele, a média da produção industrial do primeiro trimestre está 8% abaixo da média do 4º trimestre de 2008.
A produção industrial cresceu 0,7% em março ante fevereiro e caiu 10% em relação a março do ano passado. No primeiro trimestre, a produção acumulou queda de 14,7% em relação ao primeiro trimestre de 2008.
"Há uma recuperação sequencial da produção industrial, mas ela se dá sobre uma base extremamente deprimida. Em dezembro houve um colapso da produção industrial e a recuperação está longe de plenamente contrabalançar a queda extraordinária do final do ano passado", comentou. Em dezembro de 2008, a produção industrial caiu 12,5% em relação ao mês anterior.
Para Carvalho, não é possível afirmar que a recuperação da indústria será contínua. "Olhando para frente o cenário ainda é de muitas incertezas", avaliou.